Após a eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados
Unidos, embalada por uma forte campanha de arrecadação e mobilização em
redes sociais, o uso do Twitter virou moda entre os políticos
brasileiros. Dos 513 deputados federais, 253 têm perfil ativo no site
de troca de mensagens curtas. Marqueteiros e acadêmicos também passaram
a especular sobre os possíveis impactos da internet nas eleições deste
ano. Até agora, o que mais tem chamado a atenção dos internautas,
porém, é a avalanche de gafes, grosserias e erros de português (leia alguns exemplos abaixo) .
Apesar do entusiasmo, a maior parte dos políticos que aderiram ao
Twitter parece completamente despreparada para lidar com a nova
tecnologia.
O motivo para as gafes está relacionado à
natureza imediata da internet. Nos perfis citados nesta reportagem,
quase todas as atualizações foram feitas diretamente pelos políticos
sem passar por assessores, subvertendo a estrutura de comunicação à
qual eles estão acostumados. Em tese, a comunicação mais direta
ajudaria os políticos a se aproximar dos eleitores. Na prática, ela
passou a expor os tropeços típicos da comunicação instantânea. “Para
tirar do contexto uma mensagem do Twitter, que é curta, é um pulo. É
muito fácil ser mal interpretado”, afirma o empresário Antônio Graeff,
fundador de uma agência digital e autor do livro Eleições 2.0.
A
falta de intimidade no uso da internet pode causar também problemas com
a Justiça Eleitoral. A legislação eleitoral, aplicada também ao Twitter
e a outras redes sociais, só permite a campanha na internet a partir do
dia 5 de julho. “Até essa data, o político só pode usar a internet para
divulgar suas ideias e promover debates”, afirma o advogado Torquato
Jardim, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Assim,
políticos que fizerem referências explícitas à intenção de disputar um
cargo eletivo, antes do prazo legal, correm o risco de ser multados.
Foi o que ocorreu com Deda Amorim (PP-AC), condenado a pagar uma multa
de R$ 5 mil por dizer no Twitter que era candidato a deputado estadual.
Seu caso foi citado pelo governador de São Paulo, José Serra, como um
motivo para não assumir a candidatura à Presidência no Twitter. Ciro
Gomes, que outro dia disse ser “candidatíssimo a presidente”, parece
menos preocupado, ou atento, com legislação.
Juntos, os
253 deputados com perfil ativo no Twitter somam 230 mil seguidores,
menos de 1.000 por perfil. Levando-se em conta que alguns puxam essa
média para cima, como Fernando Gabeira (PV-RJ) e Fábio Faria (PMN-RN),
famoso por namorar celebridades, não é difícil concluir que a
empreitada da maioria dos outros deputados no Twitter é, até agora, um
fracasso de público. Um aspecto que impede o sucesso dos políticos no
Twitter é a falta de disposição para o diálogo, algo que faz parte da
natureza das redes sociais. A interação com os seguidores é rara. A
maior parte dos políticos tuiteiros limita-se a retransmitir elogios de
seguidores, enquanto críticas e questionamentos mais incisivos são
ignorados. Esse tipo de postura acaba provocando o desinteresse dos
internautas.
Para melhorar a audiência e evitar gafes, alguns políticos estão terceirizando sua vida virtual
Para
evitar esse destino – e vacinar-se contra as gafes – alguns políticos
começam a recorrer à consultoria de empresas e profissionais
especializados. Contratam o que poderia ser chamado de ghost-twitter,
ou tuiteiro fantasma. Um exemplo é o Instituto Análise, fundado pelo
cientista político Alberto de Almeida. Há cinco meses, ele criou um
departamento que controla os perfis virtuais de políticos. Já tem 19
clientes, a maioria do PSDB. Esses parlamentares seguem o exemplo de
Barack Obama: em novembro de 2009, o presidente americano admitiu que
nunca havia escrito pessoalmente em sua página no Twitter, uma das mais
visitadas do mundo. As atualizações de Obama ficam sob a
responsabilidade da empresa Blue State Digital, liderada pelo
marqueteiro Ben Self. Antecipando-se aos concorrentes, o PT contratou a
empresa de Self para atuar na futura campanha da ministra-chefe da Casa
Civil, Dilma Rousseff, na internet. Até agora, Dilma não tem nenhum
perfil oficial em redes sociais.
Outra candidata que
resolveu “terceirizar” ou “profissionalizar” sua vida virtual foi a
senadora Marina Silva, do PV. Marina formou uma equipe de consultores
para coordenar sua campanha digital. Entre eles está o jornalista Caio
Túlio Costa, ex-presidente dos portais UOL e IG. No início de
fevereiro, a equipe lançou um blog e um perfil no Twitter, ambos
atualizados por Marina com a colaboração dos assessores. Serra e Ciro
Gomes dizem que desenvolvem suas ações no Twitter por conta própria,
embora o governador de São Paulo conte com a ajuda da assessoria para
responder às perguntas e elaborar mensagens.
Mesmo com a
ajuda profissional, é difícil que os brasileiros assistam tão cedo a um
fenômeno eleitoral como o de Obama nas redes sociais. Segundo uma
pesquisa divulgada em dezembro pelo IBGE, 65,2% dos brasileiros acima
de 10 anos nunca tiveram acesso à internet. Nos Estados Unidos, é o
contrário: o número de internautas passa de 74% da população. Apesar da
relativa pouca difusão, o Twitter, dizem os especialistas, é uma
ferramenta que pode contribuir para o debate político, principalmente
por não sofrer as mesmas limitações de tempo do rádio e da TV. “É um
ambiente de comunicação mais democrático. Políticos que não têm a
oportunidade de divulgar suas ideias na mídia tradicional podem usar o
Twitter para cavar seu espaço”, diz a cientista política Alessandra
Aldé, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Até
agora, isso não tem ocorrido. Uma característica curiosa a respeito do
comportamento de alguns políticos na internet é a tendência majoritária
de ressaltar informações pessoais e irrelevantes. Quando não estão
cometendo gafes ou se autopromovendo, muitos postam comentários banais
sobre seu cotidiano. Por meio do Twitter, os internautas podem
descobrir que Geraldo Alckmin foi ao cinema com a mulher no dia 31 de
janeiro, que Ciro Gomes é fã do filme brasileiro Salve geral, que Soninha amassou a moto do vizinho na garagem e que Geddel Vieira Lima está engordando por causa do sarapatel.
A internet aproximou político e eleitor. O desafio, agora, é melhorar a qualidade dessa relação.
#gafes de políticos facts.
Grosserias, piadas de mau gosto e erros de português são comuns nos perfis de alguns políticos


Após a eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados
Unidos, embalada por uma forte campanha de arrecadação e mobilização em
redes sociais, o uso do Twitter virou moda entre os políticos
brasileiros. Dos 513 deputados federais, 253 têm perfil ativo no site
de troca de mensagens curtas. Marqueteiros e acadêmicos também passaram
a especular sobre os possíveis impactos da internet nas eleições deste
ano. Até agora, o que mais tem chamado a atenção dos internautas,
porém, é a avalanche de gafes, grosserias e erros de português (leia alguns exemplos abaixo) .
Apesar do entusiasmo, a maior parte dos políticos que aderiram ao
Twitter parece completamente despreparada para lidar com a nova
tecnologia.
O motivo para as gafes está relacionado à
natureza imediata da internet. Nos perfis citados nesta reportagem,
quase todas as atualizações foram feitas diretamente pelos políticos
sem passar por assessores, subvertendo a estrutura de comunicação à
qual eles estão acostumados. Em tese, a comunicação mais direta
ajudaria os políticos a se aproximar dos eleitores. Na prática, ela
passou a expor os tropeços típicos da comunicação instantânea. “Para
tirar do contexto uma mensagem do Twitter, que é curta, é um pulo. É
muito fácil ser mal interpretado”, afirma o empresário Antônio Graeff,
fundador de uma agência digital e autor do livro
Eleições 2.0.
A
falta de intimidade no uso da internet pode causar também problemas com
a Justiça Eleitoral. A legislação eleitoral, aplicada também ao Twitter
e a outras redes sociais, só permite a campanha na internet a partir do
dia 5 de julho. “Até essa data, o político só pode usar a internet para
divulgar suas ideias e promover debates”, afirma o advogado Torquato
Jardim, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Assim,
políticos que fizerem referências explícitas à intenção de disputar um
cargo eletivo, antes do prazo legal, correm o risco de ser multados.
Foi o que ocorreu com Deda Amorim (PP-AC), condenado a pagar uma multa
de R$ 5 mil por dizer no Twitter que era candidato a deputado estadual.
Seu caso foi citado pelo governador de São Paulo, José Serra, como um
motivo para não assumir a candidatura à Presidência no Twitter. Ciro
Gomes, que outro dia disse ser “candidatíssimo a presidente”, parece
menos preocupado, ou atento, com legislação.
Juntos, os
253 deputados com perfil ativo no Twitter somam 230 mil seguidores,
menos de 1.000 por perfil. Levando-se em conta que alguns puxam essa
média para cima, como Fernando Gabeira (PV-RJ) e Fábio Faria (PMN-RN),
famoso por namorar celebridades, não é difícil concluir que a
empreitada da maioria dos outros deputados no Twitter é, até agora, um
fracasso de público. Um aspecto que impede o sucesso dos políticos no
Twitter é a falta de disposição para o diálogo, algo que faz parte da
natureza das redes sociais. A interação com os seguidores é rara. A
maior parte dos políticos tuiteiros limita-se a retransmitir elogios de
seguidores, enquanto críticas e questionamentos mais incisivos são
ignorados. Esse tipo de postura acaba provocando o desinteresse dos
internautas.
Para melhorar a audiência e evitar gafes, alguns políticos estão terceirizando sua vida virtual
Para
evitar esse destino – e vacinar-se contra as gafes – alguns políticos
começam a recorrer à consultoria de empresas e profissionais
especializados. Contratam o que poderia ser chamado de ghost-twitter,
ou tuiteiro fantasma. Um exemplo é o Instituto Análise, fundado pelo
cientista político Alberto de Almeida. Há cinco meses, ele criou um
departamento que controla os perfis virtuais de políticos. Já tem 19
clientes, a maioria do PSDB. Esses parlamentares seguem o exemplo de
Barack Obama: em novembro de 2009, o presidente americano admitiu que
nunca havia escrito pessoalmente em sua página no Twitter, uma das mais
visitadas do mundo. As atualizações de Obama ficam sob a
responsabilidade da empresa Blue State Digital, liderada pelo
marqueteiro Ben Self. Antecipando-se aos concorrentes, o PT contratou a
empresa de Self para atuar na futura campanha da ministra-chefe da Casa
Civil, Dilma Rousseff, na internet. Até agora, Dilma não tem nenhum
perfil oficial em redes sociais.
Outra candidata que
resolveu “terceirizar” ou “profissionalizar” sua vida virtual foi a
senadora Marina Silva, do PV. Marina formou uma equipe de consultores
para coordenar sua campanha digital. Entre eles está o jornalista Caio
Túlio Costa, ex-presidente dos portais UOL e IG. No início de
fevereiro, a equipe lançou um blog e um perfil no Twitter, ambos
atualizados por Marina com a colaboração dos assessores. Serra e Ciro
Gomes dizem que desenvolvem suas ações no Twitter por conta própria,
embora o governador de São Paulo conte com a ajuda da assessoria para
responder às perguntas e elaborar mensagens.
Mesmo com a
ajuda profissional, é difícil que os brasileiros assistam tão cedo a um
fenômeno eleitoral como o de Obama nas redes sociais. Segundo uma
pesquisa divulgada em dezembro pelo IBGE, 65,2% dos brasileiros acima
de 10 anos nunca tiveram acesso à internet. Nos Estados Unidos, é o
contrário: o número de internautas passa de 74% da população. Apesar da
relativa pouca difusão, o Twitter, dizem os especialistas, é uma
ferramenta que pode contribuir para o debate político, principalmente
por não sofrer as mesmas limitações de tempo do rádio e da TV. “É um
ambiente de comunicação mais democrático. Políticos que não têm a
oportunidade de divulgar suas ideias na mídia tradicional podem usar o
Twitter para cavar seu espaço”, diz a cientista política Alessandra
Aldé, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Até
agora, isso não tem ocorrido. Uma característica curiosa a respeito do
comportamento de alguns políticos na internet é a tendência majoritária
de ressaltar informações pessoais e irrelevantes. Quando não estão
cometendo gafes ou se autopromovendo, muitos postam comentários banais
sobre seu cotidiano. Por meio do Twitter, os internautas podem
descobrir que Geraldo Alckmin foi ao cinema com a mulher no dia 31 de
janeiro, que Ciro Gomes é fã do filme brasileiro Salve geral, que Soninha amassou a moto do vizinho na garagem e que Geddel Vieira Lima está engordando por causa do sarapatel.
A internet aproximou político e eleitor. O desafio, agora, é melhorar a qualidade dessa relação.
#gafes de políticos facts.
Grosserias, piadas de mau gosto e erros de português são comuns nos perfis de alguns políticos
