"Estamos vivendo uma carência de posições e de ideologias e essas ferramentas possibilitam estimular o debate com a sociedade", diz o deputado federal Eliseu Padilha, presidente da Fundação Ulysses Guimarães, que capitaneia a discussão sobre o uso das redes sociais pelo PMDB. Por ora, o PV é a única legenda presente em cinco redes. DEM e PT ainda não definiram como será a participação dos seus candidatos na web em 2010, embora expoentes das agremiações já estejam em ação nos espaços virtuais.
A posição dos tucanos também é reticente: "A minha avaliação pessoal é que tudo isso será menos importante do que se acredita porque a cultura brasileira de participação é diferente da americana e da europeia", afirma Eduardo Jorge, vice-secretário executivo do PSDB e líder de estudo interno da legenda sobre o uso das redes sociais.
Um dos canais favoritos dos políticos brasileiros é o Twitter, microblog que aceita textos de no máximo 140 caracteres e que tem se popularizado pela facilidade de postagem de mensagens a partir de computador ou celular. De acordo com o Politweets, ferramenta que contabiliza a participação de políticos no Twitter, até o momento um governador, 13 senadores, 27 deputados federais e quatro deputados estaduais utilizam o microblog.
Estratégias - Estar presente nas redes sociais em 2010 não será o suficiente para colher sucesso nas urnas, adverte Fernando Barros, presidente da agência de publicidade e marketing político Propeg. "Será preciso montar estratégias criativas, inéditas e que trabalhem a customização das mensagens para públicos específicos, deixando de lado os boletins generalistas." Para ele, esse foi o grande trunfo da campanha eleitoral de Obama.
Barros já realizou um "laboratório" do que poderá ser usado por aqui no próximo ano: as eleições legislativas de Angola, em 2008, em que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) conquistou cerca de 80% dos votos. A estratégia desenvolvida pelo publicitário lá foi aproximar o candidato do eleitorado. "Quando um político comenta em uma rede social a música que está ouvindo, ele humaniza sua figura e se aproxima do eleitor", explica. "É impressionante como funcionou: o resultado foi muito superior ao esperado", avalia.
Outro ponto importante seria evitar estratégias "invasivas". Isso porque, de acordo com pesquisa realizada pela Propeg com eleitores de São Paulo, Salvador, Brasília e Belo Horizonte, a maioria dos eleitores de classe C e D rejeita pop ups, e-mail marketing e newsletter de campanhas políticas.
Indignação virtual - Outro especialista em marketing político, o consultor Gaudêncio Torquato, diz que as redes sociais podem mudar a cultura de participação dos brasileiros no processo político. "Agora, existe a opinião pública virtual, que é muito influenciada pelo que circula na internet", explica. "Nunca se viu tanta propagação de mensagens de interesse político na internet: se acontece um escândalo, uma votação polêmica em Brasília, imediatamente as pessoas começam a se manifestar nos blogs e twitters."
Segundo Torquato, todas as consultorias em marketing político já estão estudando estratégias que utilizam as ferramentas da internet para as próximas eleições. "São mais de 50 milhões de pessoas utilizando a web hoje no país. Não dá para ignorar esse número."
Após a eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos, embalada por uma forte campanha de arrecadação e mobilização em redes sociais, o uso do Twitter virou moda entre os políticos brasileiros. Dos 513 deputados federais, 253 têm perfil ativo no site de troca de mensagens curtas. Marqueteiros e acadêmicos também passaram a especular sobre os possíveis impactos da internet nas eleições deste ano. Até agora, o que mais tem chamado a atenção dos internautas, porém, é a avalanche de gafes, grosserias e erros de português (leia alguns exemplos abaixo) . Apesar do entusiasmo, a maior parte dos políticos que aderiram ao Twitter parece completamente despreparada para lidar com a nova tecnologia.
A falta de intimidade no uso da internet pode causar também problemas com a Justiça Eleitoral. A legislação eleitoral, aplicada também ao Twitter e a outras redes sociais, só permite a campanha na internet a partir do dia 5 de julho. “Até essa data, o político só pode usar a internet para divulgar suas ideias e promover debates”, afirma o advogado Torquato Jardim, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Assim, políticos que fizerem referências explícitas à intenção de disputar um cargo eletivo, antes do prazo legal, correm o risco de ser multados. Foi o que ocorreu com Deda Amorim (PP-AC), condenado a pagar uma multa de R$ 5 mil por dizer no Twitter que era candidato a deputado estadual. Seu caso foi citado pelo governador de São Paulo, José Serra, como um motivo para não assumir a candidatura à Presidência no Twitter. Ciro Gomes, que outro dia disse ser “candidatíssimo a presidente”, parece menos preocupado, ou atento, com legislação.
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Para
evitar esse destino – e vacinar-se contra as gafes – alguns políticos
começam a recorrer à consultoria de empresas e profissionais
especializados. Contratam o que poderia ser chamado de ghost-twitter,
ou tuiteiro fantasma. Um exemplo é o Instituto Análise, fundado pelo
cientista político Alberto de Almeida. Há cinco meses, ele criou um
departamento que controla os perfis virtuais de políticos. Já tem 19
clientes, a maioria do PSDB. Esses parlamentares seguem o exemplo de
Barack Obama: em novembro de 2009, o presidente americano admitiu que
nunca havia escrito pessoalmente em sua página no Twitter, uma das mais
visitadas do mundo. As atualizações de Obama ficam sob a
responsabilidade da empresa Blue State Digital, liderada pelo
marqueteiro Ben Self. Antecipando-se aos concorrentes, o PT contratou a
empresa de Self para atuar na futura campanha da ministra-chefe da Casa
Civil, Dilma Rousseff, na internet. Até agora, Dilma não tem nenhum
perfil oficial em redes sociais.
Outra candidata que resolveu “terceirizar” ou “profissionalizar” sua vida virtual foi a senadora Marina Silva, do PV. Marina formou uma equipe de consultores para coordenar sua campanha digital. Entre eles está o jornalista Caio Túlio Costa, ex-presidente dos portais UOL e IG. No início de fevereiro, a equipe lançou um blog e um perfil no Twitter, ambos atualizados por Marina com a colaboração dos assessores. Serra e Ciro Gomes dizem que desenvolvem suas ações no Twitter por conta própria, embora o governador de São Paulo conte com a ajuda da assessoria para responder às perguntas e elaborar mensagens.
Mesmo com a
ajuda profissional, é difícil que os brasileiros assistam tão cedo a um
fenômeno eleitoral como o de Obama nas redes sociais. Segundo uma
pesquisa divulgada em dezembro pelo IBGE, 65,2% dos brasileiros acima
de 10 anos nunca tiveram acesso à internet. Nos Estados Unidos, é o
contrário: o número de internautas passa de 74% da população. Apesar da
relativa pouca difusão, o Twitter, dizem os especialistas, é uma
ferramenta que pode contribuir para o debate político, principalmente
por não sofrer as mesmas limitações de tempo do rádio e da TV. “É um
ambiente de comunicação mais democrático. Políticos que não têm a
oportunidade de divulgar suas ideias na mídia tradicional podem usar o
Twitter para cavar seu espaço”, diz a cientista política Alessandra
Aldé, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Até
agora, isso não tem ocorrido. Uma característica curiosa a respeito do
comportamento de alguns políticos na internet é a tendência majoritária
de ressaltar informações pessoais e irrelevantes. Quando não estão
cometendo gafes ou se autopromovendo, muitos postam comentários banais
sobre seu cotidiano. Por meio do Twitter, os internautas podem
descobrir que Geraldo Alckmin foi ao cinema com a mulher no dia 31 de
janeiro, que Ciro Gomes é fã do filme brasileiro Salve geral, que Soninha amassou a moto do vizinho na garagem e que Geddel Vieira Lima está engordando por causa do sarapatel.
A internet aproximou político e eleitor. O desafio, agora, é melhorar a qualidade dessa relação.
Grosserias, piadas de mau gosto e erros de português são comuns nos perfis de alguns políticos


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