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Viajando com a ajuda da social e colaborativa web 2.0, você se sente acompanhado mesmo sozinho. Duvida? O técnico em informática Victor Mello não precisou de companhia para encarar um mochilão de um mês pela América do Sul - tampouco de um planejamento prévio. De férias, ele não pensou duas vezes antes de partir para Buenos Aires. E, a partir de lá, não pensou sequer uma vez em para onde seguiria. Decidiu tudo na estrada, por meio de mídias sociais que acessava via iPhone.

 

Victor foi montando seu roteiro enquanto seguia viagem. Sozinho, sim - mas com todos os viajantes da web a seu lado. "Bastava o acesso Wi-Fi, o que quase todos os albergues têm. Por blogs, reviews de mochileiros e marcações de outras pessoas no Google Maps, eu decidia meu futuro", diz Victor, que da capital argentina, foi à Patagônia e, de lá, percorreu o Chile de sul a norte.

 

Para o jornalista Beline Cidral, que relatou suas experiências de 1 ano e meio de viagens em um blog (www.revistaup.com/blogdobeline), já se pode dizer que os mecanismos sociais da internet substituíram o guia de papel. "A relação, por meio do 2.0, é outra. Nos guias tradicionais, o tratamento é sempre do profissional com o turista. A internet acabou com esse intermediário", pondera.

 

Há um 1 ano e meio, Beline caiu no mundo. Conheceu do Quênia à Tailândia, hospedando-se nas casas de (des)conhecidos da internet. Seu lar, em meio ao nomadismo, foi a web. "Sem um porto seguro, o blog era a maneira de me comunicar com o mundo. Além dele, eu postava vídeos no YouTube, fotos no Flickr e falava com os amigos pelo Skype. Depois, falando no Twitter dos lugares que eu conhecia, vi que muitos outros viajantes começaram a me seguir", diz ele, que acha que na rede sempre haverá alguém que pode "apontar um caminho".

 

Na ferramenta de busca em tempo real do Twitter (http://search.twitter.com), ele procurava informações pontuais sobre a situação do país para o qual partiria. Em sites como o Skyscanner.net, que compara vantagens nos preços de passagens aéreas no mundo todo, escolhia a forma mais vantajosa de voar. No HostelWorld.com, pesava as críticas dos mochileiros e escolhia em que albergue dormir.

 

Assim como ele, muitos brasileiros se planejam, via web, antes de saírem de férias. Segundo o Ibope/NetRatings, em 2008, 72% compararam preços na internet antes de viajarem, e a busca por sites de turismo dobrou nos últimos dois anos. Os sites colaborativos, montados com conteúdo produzido pelos próprios internautas, ajudaram muito nesse crescimento.

 

Mas em uma viagem assim, totalmente planejada em cima da vivência alheia, não se deixa de lado a experiência individual? Explorar por si mesmo, perder-se em meio a outra cultura, não faz mais parte da aventura de deixar a sua rotina?

Para Beline, a internet ajuda na hora dos perrengues, mas deixá-la de lado ainda é fundamental. "Quando estava tudo dando muito certo, eu arranjava um jeito de me perder. Precisei cair na estrada para descobrir que isso é bom", brinca.

 

Opinião semelhante tem o gerente de projetos Ricardo Moraleida, 25 anos, que conheceu a Europa por meio do Couchsurfing.org. Uma rede de troca de contatos online, a organização facilita a comunicação entre viajantes, que cedem os sofás de suas casas como hospedagem uns aos outros.

 

Para ele, que ainda prefere o guia em papel, a internet é apenas um meio. O fim é conhecer outros lugares e, principalmente, novas pessoas. "Na minha primeira experiência, em 2007, eu até tinha feito reserva online, em albergue. Mas fui conhecendo as pessoas e perdi o receio. A melhor coisa é contar com a ajuda dos moradores para conhecer o lugar".

 

CUIDADOS

 

Mas nem tudo são flores nos sites de viagem colaborativos. Apesar de muito úteis, é preciso tomar alguns cuidados para não se deixar enganar - afinal, o sistema 2.0 não é infalível.

 

É importante ficar atento não apenas à nota recebida por um estabelecimento ou serviço mas também ao número de pessoas que postaram comentários sobre eles. Fuja das opções pouco comentadas e muito bem avaliadas, assim você evita se guiar por alguém que tenha um vínculo com o lugar avaliado.

 

Além disso, apesar de ser possível planejar todas as etapas da viagem a partir de sites 2.0 (leia mais ao lado), isso deve ser mais como um ponto de partida para a sua empreitada.

 

E não esqueça de, na volta, deixar as suas impressões nos serviços que você consultou. Da mesma forma que você foi ajudado, a sua experiência pode servir de guia para alguém.

 

forum MOCHILEIROS.COM

 

Autointitulada a maior comunidade de viajantes independentes de língua portuguesa, o Mochileiros.com é o exemplo mais antigo, no Brasil, de site colaborativo de viagens. Silnei Andrade começou o fórum há dez anos - na época, o Mochileiros era um apêndice do portal Mochila Brasil, criado para custear uma viagem de dois anos pelo País. Hoje, tem mais de 70 mil cadastrados e recebe 350 mil visitantes únicos por mês. Apesar da popularidade, Ele reconhece que a ferramenta precisa de inovações. A tendência é que o Mochileiros se torne uma rede social - em breve os usuários poderão ter lista de amigos, álbum de fotos e blog. Algumas ferramentas terão mashup com o Google Maps.

 

Serão implantados um guia de albergues em que os usuários avaliarão a hospedagem, aos moldes do Hostels.com, e mais, para frente, serviços que já existem nos fóruns, como achar companhia para viajar e conseguir carona, ganharão ferramentas próprias. O Link conversou com Silnei sobre os dez anos do site.

 

Você acha que o Mochileiros mudou a maneira das pessoas viajarem?

Sem dúvida. Em 1999, a palavra mochileiro era considerada pejorativa. Uma proprietária de um albergue da juventude chegou a nos dizer que "mochileiro não se hospeda em albergue, dorme em banco de praça". Ela deveria estar se referindo a hippies que vendem artesanato. O público do site não só acompanhou esse movimento como ajudou a mudar aquela visão distorcida e até provinciana de turismo. A pessoa viaja assim por estilo.

 

Nesses dez anos, o perfil dos usuários mudou?

 

Os primeiros usuários eram pessoas que já viajavam e que, por isso, se reuniram ali. Hoje há mais pessoas online e muitas chegam sem saber nada do destino que querem conhecer. Viagem independente precisa de planejamento e ele começa meses antes de se ir pra rua. Para esse público iniciante explicamos isso através de alguns tópicos com dicas básicas e também criamos fóruns para análise de roteiros. Você cria uma rota e a disponibiliza para todos opinarem.

 

Você acha que as informações do fórum substituem os guias tradicionais?

Eu acho que essa é uma tendência mundial, não só em relação aos guias de viagem. Quando se compra um guia impresso, você tem ali a opinião de um editor ou de um grupo pequeno. Na internet tem a opinião de todos. Os guias tradicionais já perceberam isso e estão migrando para a web - o Lonely Planet hoje vende arquivos em PDF mais atualizados do que as versões impressas.

 

O conhecimento colaborativo também tem os seus contras - por exemplo, uma informação errada. Como vocês fazem para evitar isso?

Criamos um grupo que chamamos de Conselho Editorial, como a Wikipedia. São pessoas que conhecem bem os destinos. Há também um sistema de avaliação: se alguém escreve algo importante e válido, recebe votos positivos. Se escreve algo que não corresponde com a realidade, os votos são negativos.

 

O excesso de informações não muda o conceito do mochilão, que é colocar a mochila nas costas e partir?

Por mais que você planeje, sempre terá coisas novas para conhecer. Há muita coisa acontecendo no mundo. Não se deve seguir tudo ao pé da letra, nem fazer um roteiro como um pacote de turismo. É legal pode mudar a rota no meio da viagem. (Tatiana de Mello Dias)

 

documento VIAJAR 2.0

 

Tripadvisor.com - Ponto de partida obrigatório para quem pretende viajar. Segundo o próprio site, 15 milhões de viajantes, de 190 países diferentes, planejaram suas viagens usando-o na semana passada. Conta com mais de 20 milhões de opiniões sobre hotéis e restaurantes pelo mundo, além de sugestões de atrações, passeios e até ideias de viagens. Todos os estabelecimentos cadastrados, com serviço, preço e fotos, foram sugeridos pelos usuários. Pesquisar é super fácil: basta buscar pela cidade para onde pretende ir na página principal do serviço e encontrar muitas opções de hospedagem, lugares para comer, etc. Tudo ranqueado, avaliado e comentado pelos internautas. O que ajuda - e muito - na hora de tomar uma decisão. Em muitos casos é possível ainda fazer as reservas online. Tem versão em português.

 

Wikitravel.org - Funciona como o seu primo mais velho e famoso, a Wikipédia, mas em vez de uma enciclopédia os seus usuários/viajantes ajudam a criar um gigantesco guia de turismo livre, colaborativo e gratuito. Os tópicos bastante completos e constantemente atualizados costumam ser bem ricos e - acredite - precisos, com informações detalhadas e atuais. Os locais são separados por regiões geográficas, mas também é possível pesquisar por uma palavra-chave, seja uma cidade, um país, ou o que mais você queira. Com cerca de 21 mil guias de destinos (dos quais pouco mais de 2 mil em português), número que cresce diariamente, é uma ótima opção para pesquisar atrações, passeios, etc. Em 2007 recebeu o Webby Awards, o Oscar da internet, como melhor site de viagens. Tem versão em português.

 

Triplt.com - Quer organizar sua viagem? Esse é o serviço que você procura (infelizmente, disponível só em inglês). Basta encaminhar todos os e-mails de confirmação da sua viagem, seja do bilhete aéreo, da reserva do hotel, etc. para plans@tripit.com, que ele cria uma espécie de itinerário do seu passeio. E dá até para compartilhar o seu roteiro com outras pessoas, no caso de uma viagem em grupo, por exemplo. Além disso, ele permite que você planeje cada etapa da sua viagem e ainda oferece sugestões de passeios em lugares pelos quais você passará. Pode ser acessado via celular e não permite incluir cidades não gravadas no seu banco de dados. Outra opção similar, que tem crescido nos últimos tempos, é NileGuide.com, que ao contrário do Triplt, permite pesquisar livremente no seu banco de dados.

 

IgoUgo.com - Essa rede social, que existe desde 2000, permite que você organize praticamente todas as etapas da sua viagem: escolher um destino, traçar um roteiro, comparar preços de hospedagem, etc. A colaboração é a característica mais forte do site, que faturou o Webby Awards de 2004 como melhor página de turismo. Cada usuário tem um perfil próprio, que permite que você conheça quem é o autor de cada uma das críticas ou dos elogios aos serviços, personalizando a recomendação. O IgoUgo ainda oferece hospedagem para blogs de viajantes (ou ‘Trip Journals’) e deixa que você compartilhe histórias e fotos de suas aventuras. Além disso, ele possui um variado guia de restaurantes. A única desvantagem é que ele ainda não tem versão em português. Mas se você sabe inglês, é uma das melhores opções 2.0.

 

World66.com - A proposta do site é ser "um guia de viagens feito por você". Os quase 80 mil artigos hospedados na comunidade oferecem informações de cerca de 20 mil destinos. É uma das páginas de viagem 2.0 mais completas na internet. Um dos diferenciais do projeto é que ele oferece também guias segmentados como, por exemplo, um que indica quais os melhores lugares para mergulhadores se aventurarem. O site ganhou força em 2003, quando adquiriu todo o conteúdo de um site turístico semelhante, o CaptainCook. Hoje, tudo que hospeda é veiculado em uma plataforma semelhante aos wikis e está licenciado em Creative Commons, podendo ser reproduzido e adaptado livremente em outros lugares. Também conta com blogs e permite o compartilhamento de fotos. Não possui versão em português.

 

Bing.com - O novo buscador do Microsoft investe para ajudar pessoas que querem viajar ou encontrar informações sobre tipo de restaurante, entre outras atividades de lazer, como cinema, teatro. Na parte de viagens, o Bing usa a tecnologia do antigo site Farecast (comprado ano passado e ganhador do Webby Award de site de viagem, em 2008). Não há nada social ou colaborativo aí. Já na indicação de estabelecimentos, ele se baseia em sites que levam em conta a indicação de usuários. Os serviços ainda não funcionam para buscar estabelecimentos brasileiros, além disso seu uso está restrito aos americanos, mas é possível experimentá-lo mudando a sua localização para EUA. O buscador, novato, ainda engatinha nesse território, mas a Microsoft não deve poupar recursos para dominar, ao menos, esse filão da web.


Complementos desta reportagem:
Viaje conectado com o mundo
• Seu guia são os próprios viajantes
Passaporte, passagem, bagagem e Google


Fonte: Estadão

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